Clarice Lispector
Poemas
Entre duas notas de
música existe uma nota,
entre dois fatos existe
um fato,
entre dois grãos
de areia por mais juntos que estejam
existe um intervalo
de espaço,
existe um sentir que
é entre o sentir
- nos interstícios
da matéria primordial
está a linha
de mistério e fogo
que é a respiração
do mundo,
e a respiração
contínua do mundo
é aquilo que
ouvimos
e chamamos de silêncio.
Bendita a árvore
que te pariu.
Estou por assim dizer
vendo claramente o
vazio.
E nem entendo aquilo
que entendo:
pois estou infinitamente
maior que eu mesma,
e não me alcanço.
Além do que:
que faço dessa
lucidez?
Sei também
que esta minha lucidez
pode-se tornar o inferno
humano
- já
me aconteceu antes.
Pois sei que
- em termos de nossa
diária
e permanente acomodação
resignada à
irrealidade -
essa clareza de realidade
é um risco.
Apagai, pois, minha
flama, Deus,
porque ela não
me serve
para viver os dias.
Ajudai-me a de novo
consistir
dos modos possíveis.
Eu consisto,
eu consisto,
amém.
Minha falta de coragem
de matar uma galinha
e no entanto comê-la
morta
me confunde, espanta-me,
mas aceito.
A nossa vida é
truculenta:
nasce-se com sangue
e com sangue corta-se
a união
que é o cordão
umbilical.
E quantos morrem com
sangue.
É preciso acreditar
no sangue
como parte de nossa
vida.
A truculência.
É amor também.
No obscuro erotismo
de vida cheia
nodosas raízes.
Missa negra, feiticeiros.
Na proximidade de
fontes,
lagos e cachoeiras
braços e pernas
e olhos,
todos mortos se misturam
e clamam por vida.
Sinto a falta dele
como se me faltasse
um dente na frente:
excrucitante.
Que medo alegre,
o de te esperar.
Mas aqui vai o meu
berro
me rasgando as profundas
entranhas
de onde brota o estertor
ambicionado.
Quero abarcar o mundo
com o terremoto causado
pelo grito.
O clímax de
minha vida será a morte.
Quero escrever noções
sem o uso abusivo
da palavra.
Só me resta
ficar nua:
nada tenho mais a
perder.