Free Web space and hosting from 4t.com
Search the Web


Fernando Pessoa
 
Alberto Caeiro

 
Poemas Inconjuntos
 
A Noite Desce
 Assim Como
Creio
Estas Verdades
Estou Doente
É Talvez o Último Dia da Minha Vida
Navio que Partes
O Espelho
Nunca Sei
Ontem o Pregador
O que Ouviu os Meus Versos
O Único Mistério do Universo
Pouco a Pouco
Pouco me Importa
Também Sei Fazer Conjeturas
Um Dia de Chuva
Última Estrela
Verdade, Mentira
Vive
 


 
A Noite Desce


 
Assim Como


 
Creio


 
Estas Verdades
 
 
           Estas verdades não são perfeitas porque são ditas.
           E antes de ditas pensadas.
           Mas no fundo o que está certo é elas negarem-se a si próprias.
           Na negação oposta de afirmarem qualquer cousa.
           A única afirmação é ser.
           E ser o oposto é o que não queria de mim.
 


 
Estou Doente
 
 
            Estou doente. Meus pensamentos começam a estar confusos
            Mas o meu corpo, tirado às cousas, entra nelas.
            Sinto-me parte das cousas com  .............................
            E uma grande libertação começa a fazer-se em mim,
            Uma grande alegria solene como a de eu estar vem
 


 
É Talvez o Último Dia da Minha Vida
 
     

 
Navio que Partes


 
O Espelho
 

 
Nunca Sei
 
 
        Nunca sei como é que se pode achar um poente triste.
        Só se é por um poente não ter uma madrugada.
        Mas se ele é um poente, como é que ele havia de ser uma madrugada?
 


 
Ontem o Pregador


 
O que Ouviu os Meus Versos
 
 
      O que ouviu os meus versos disse-me: "Que tem isso de novo?
      Todos sabem que unia flor é uma flor e uma árvore é uma árvore.
      Mas eu respondi, nem todos, (?.......... )
      Porque todos amam as flores por serem belas, e eu sou diferente
      E todos amam as árvores por serem verdes e darem sombra, mas eu não.
      Eu amo as flores por serem flores, diretamente.
      Eu amo as árvores por serem árvores, sem o meu pensamento.
 


 
O Único Mistério do Universo
 
             O único mistério do Universo é o mais e não o menos.
             Percebemos demais as cousas — eis o erro, a dúvida.
             O que existe transcende para mim o que julgo que existe.
             A Realidade é apenas real e não pensada.
 


 
Pouco a Pouco
 
 
              Pouco a pouco o campo se alarga e se doura.
              A manhã extravia-se pelos irregulares da planície.
              Sou alheio ao espetáculo que vejo: vejo-o,
              É exterior a mim. Nenhum sentimento me liga a ele.
              E é esse sentimento que me liga à manhã que aparece.
 


 
Pouco me Importa
 
 
               Pouco me importa.
               Pouco me importa o que? Não sei: pouco me importa.
 


 
Também Sei Fazer Conjeturas
 

 
Um Dia de Chuva
                               

 
Última Estrela
 
 

 
Verdade, Mentira
 
 
         Verdade, mentira, certeza, incerteza...
         Aquele cego ali na estrada também conhece estas palavras.
         Estou sentado num degrau alto e tenho as mãos apertadas
         Sobre o mais alto dos joelhos cruzados.
         Bem: verdade, mentira, certeza, incerteza o que são?
         O cego pára na estrada,
         Desliguei as mãos de cima do joelho
         Verdade mentira, certeza, incerteza são as mesmas?
         Qualquer cousa mudou numa parte da realidade — os meus joelhos e as
       minhas mãos.
         Qual é a ciência que tem conhecimento para isto?
         O cego continua o seu caminho e eu não faço mais gestos.
         Já não é a mesma hora, nem a mesma gente, nem nada igual.
         Ser real é isto.
 


 
Vive
 
         Vive, dizes, no presente,
         Vive só no presente.

         Mas eu não quero o presente, quero a realidade;
         Quero as cousas que existem, não o tempo que as mede.

         O que é o presente?
         É uma cousa relativa ao passado e ao futuro.
         É uma cousa que existe em virtude de outras cousas existirem.
         Eu quero só a realidade, as cousas sem presente.

         Não quero incluir o tempo no meu esquema.
         Não quero pensar nas cousas como presentes; quero pensar nelas
                         como cousas.
         Não quero separá-las de si-próprias, tratando-as por presentes.

         Eu nem por reais as devia tratar.
         Eu não as devia tratar por nada.

         Eu devia vê-las, apenas vê-las;
         Vê-las até não poder pensar nelas,
         Vê-las sem tempo, nem espaço,
         Ver podendo dispensar tudo menos o que se vê.
         É esta a ciência de ver, que não é nenhuma.


Volver a Pessoa
Volver a Otros AutoresVolver a Ophelia